Pesados os prós e os contras, feitas as contas, ao longo de 40 anos, FERNANDO GOMES é o genuíno e legítimo representante do Fado que houve e ainda há na mui nobre e invicta cidade
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COMO NASCE UMA CANTIGA
16 de Maio de 2006

Nunca me tinha apercebido que fisicamente era mais alto meia-cabeça do que o Fernando Gomes, e isto porque me habituei a ouvi-lo e a apreciá-lo comodamente sentado. Nesta pose, presa ao futuro pelo meu jovem amigo Miauzz, no momento do clique fotográfico, não sei se já estaria ou não a procurar no cérebro os versos e as rimas para o poeminha que aglomerasse o jardim familiar do Fernando. Logo adiante, na Conga do Bonjardim, após apimentarmos a língua e refrescarmos os lábios, falando sobre o mundo e a vida das nossas recordações, subimos a pé até à Praça da República, onde, desta feita em plena tarde, nos despedimos, tal como tantas vezes fizemos nas longas madrugadas dos anos 60. Até logo, até sempre, Nando.

INCÓLUME

Fernando Gomes casou assaz jovem, sendo hoje pai de uma mulher e dois homens (enfermeira, músico e jornalista) que por sua vez lhe deram cinco netos. Atravessou incólume o túnel da vida em direcção à luzinha que lhe via ao fundo e, aos 63 anos de idade, prossegue avante em busca da definitiva aurora que o diluirá no arco-íris da infinidade.



A ROSA E O CRAVO

Ó rosa mor, donairosa,
Ó flor do doce travo;
Enquanto cheirar a rosa
Nais viço tem o meu cravo...

Colhi-te no verde prado
Sonhando de ingenuidade
E hoje vejo com agrado
Que o sonho era verdade...

À luz da realidade,
Unidos somos enfim
Rosa e cravo da saudade,
Velhos num novo jardim.

Da seiva de ti, de mim,
Dois cravos e uma rosa
Floriram e sem fim
Florirão de alma ditosa

Brotando essência gostosa
No futuro perfumado,
Cravo a cravo, rosa a rosa
Canto feliz o meu fado...

E assim vou no trinado
Que embala a minha vida
Do berço ao leito estrelado
Da minha eterna guarida.

António Torre da Guia